terça-feira, 27 de julho de 2010

A IDADE DA FELICIDADE

Um sábado de sol pleno, nenhum biombo entre a luz e a terra. Há quanto tempo o vivente não desfrutava de uma sequência assim iluminada, trégua para os dias de chuva e vento? (Desejo que manifesto ao escrever 24 horas antes, mesmo sabendo que a previsão insiste em anunciar mais chuva. E se já está chovendo, leitor, abra o seu próprio sol, como quem liga um interruptor na natureza).

O tempo influi decisivamente na psiquê das pessoas, um sábado de sol costuma ter o efeito de uma alucinação coletiva, arrebatamento que leva o homem a pensar que a felicidade até existe.

Felicidade. O que será? Júbilo, prazer, bem-estar, satisfação, qualquer que seja o seu nome, a felicidade é um pequeno frasco, administrável a conta-gotas — e facilmente quebrável. Na minha infância, simplesmente atendia pelo nome de sábado. Dia de festa, ar livre, euforia ao sol — especialmente este soleil puro e descoberto, como o do pré-outono.

Às vezes, era convocado por minha avó para acompanhá-la à missa do sábado. Bem na hora do Angelus, a Ave Maria, de Charles Gounod, inundava o espaço etéreo no Momento da Prece. A missa de véspera, às 18h, “valia” pela missa de domingo. Com a vantagem de liberar a manhã do dia santo só para a matinada do Cine São José.

Uma vez na capela do Menino Deus, o garoto ficava indócil. Passava o tempo olhando os fiéis em volta, compenetrados em acertar o “dó de peito” na hora em que o padre convidava:

— Caríssimos irmãos, página 17, vamos cantar o Queremos Deus…

“Homens ingratos”, reclamava o refrão. Mas quem poderia culpar a inquietude das crianças na missa, roídas pelo tédio e pelo tempo que custava a passar?

Sábado era, também, a tarde dos seriados no Cine Roxy. Os Perigos de Nyoka, Capitão América, O Vencedor, O Cavaleiro Negro, Diana e o Fantasma Voador, Hopalong Cassidy, A Volta de Jesse James, Tarzan, O Destemido, Dick Tracy, o Detetive — e outros hits do celuloide cor de sépia.

Se houvesse circo na cidade, o dia, mesmo num sábado, não poderia ter sido de sol. Era tempestade na certa. Aliás, furar a entrada do circo era, na chamada segunda infância, o supremo orgasmo da felicidade. Venturosa sensação, a de ter enganado o porteiro e assistir, ainda que do pior poleiro, todo o espetáculo de graça. Como herança da proeza, vistoso buraco nos fundilhos — obra e graça do arame farpado. Cerzir a calça ia custar mais caro do que o ingresso, mas “furar” o circo era um rasgo de pura felicidade — e a calça rasgada, apenas uma bronca materna, aliviada pela avó.

Sábado de manhã havia aula. No Catarinense e no Coração de Jesus. Era um pouco mais sério o calendário, mais completas as horas-aulas e a própria qualidade do ensino. As manhãs de sábado ficavam mais coloridas, com o esvoaçar dos uniformes plissados das meninas do “Coração”.

Essa outra felicidade já pertencia à adolescência: “dar plantão” ao meio-dia, na saída do Coração de Jesus. Era tocar o sino e — por encanto! — produziam-se centenas de meninas em flor, butterflies em animado alarido. Hora de puxar o Hollywood com filtro do bolso e engrossar a voz hesitante. E, diante das moças, acender o cigarro com a experiência de um Mr. Bogart, Humphrey Bogart — cada menina no papel de uma infantil Ingrid Bergman. Era preciso “investigar” aqueles seres belos e delicados, estranhos, muitas vezes, adoráveis, quase sempre.

Fugaz felicidade. A princesa de ontem — que remetera promessas no olhar — no dia seguinte dedicaria sua atenção a outros súditos, garotos mais encorpados, cujo “gogó” — o tal pomo-de-adão — subia e descia no meio do pescoço. O meu era “embutido” — prova, talvez, de minha precoce presença naquela revoada galante, à saída do colégio das freiras

Digo tudo isto apenas para concluir: a felicidade na idade madura é um pássaro esquivo e platônico. “Ninguém é mais feliz depois dos 30″ — advertira Baudelaire, o poeta maldito.

Um radical, certamente. Em homenagem ao sábado, amenizo as azias do poeta e digo que, depois dos 30, a única felicidade consiste em perseguir a felicidade…

 Sérgio da Costa Ramos
Tela La Tarantella, 1879 by Leon Jean Perrault


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