sábado, 27 de dezembro de 2014

ADEUS MEU VELHO!

 
Boa noite meu velho! – Disse eu àquele senhor, sentado sozinho no banco da praça, olhando quem passa, com seu ar cansado, rosto marcado, barba branca e longa, olhar perdido ao longe, ombros caídos, mãos trêmulas segurando seu cajado, usado para ajudar suas pernas em seus últimos passos, sorriso escondido de quem está chegando ao fim.
- Boa noite meu filho – respondeu o velho com sua voz rouca, baixa e muito cansada...
O senhor não está bem? – perguntei...
- Estou cansado... Minha hora está chegando meu filho. Já cumpri minha missão. Todo mundo está esperando minha partida. Alguns com emoção. Outros com tristeza no coração... Estou contando as horas. Parece que foi ontem que fui recebido com festa. Até aqueles homens e mulheres que vivem ao relento me esperavam chegar. Quando cheguei o mundo todo já estava enfeitado de luzes, fogos coloridos e alegria... A esperança era a companhia de todos, com suas roupas novas e cada ser com sua cor predileta e suas simpatias acreditando que tudo seria diferente quando eu chegasse. E na contagem regressiva, muitos choravam, outros dançavam, alguns rezavam, outros buscavam dentro de si a esperança. Mas todos comemoravam a minha chegada. Eu representava, naquele momento, uma nova vida, novos amores, novos sonhos, retornos esperados, retomadas de paixões, e principalmente a prosperidade e a paz.
- É verdade – interrompi - Todos nós esperamos melhorar a vida, as relações, a sorte, as paixões, conquistar novos amores, manter o amor, cultivar pra não perder, se encontrar, nova vida viver. Eu também, meu velho. Eu também sonhei muito. Quis muitas coisas. Algumas consegui, outras não. Tanto ganhei. Tanto perdi, mesmo assim muitas coisas aprendi.
- Pois é meu filho – disse o velho me interrompendo também – Está quase na hora de ir. Em mim muitos sonhos foram realizados. Muitos amores, muitas pessoas, muitos sonhos, nasceram e morreram. Muitos foram felizes. Outros tantos sofreram. Alguns contaram o tempo para eu passar logo. Outros torceram para que eu parasse e deixasse que eles vivenciassem aquele momento de amor, felicidade, alegria sabendo que talvez jamais se repetiria.
- É verdade meu velho! – disse eu - Novamente eu sou testemunha disso. Também quis que o tempo parasse e que ele me deixasse ali, naquele exato momento, e nunca mais desse um passo à frente. Mas o tempo é implacável, Ele não para e nem tem sentimento. O tempo é frio e apressado!
- Meu filho, tenho que ir... – Me interrompeu o velho dizendo - Meu presente está chegando ao fim. Ontem fui futuro. Já serei passado. Página virada, talvez por alguns esquecida ou por outros lembrada, mas já vejo a contagem regressiva para a minha partida, o fim da minha jornada.
O velho, já muito cansado, me entregou um livro e disse: - É meu presente de despedida.
Peguei o livro e na capa estava escrito, em letras douradas, 2015 e dentro dele tinham trezentos e sessenta e cinco páginas numeradas e em branco. Então perguntei – Não tem nada escrito, meu velho? E então ele disse:
- Este livro é seu. Nele você escreverá mais um capítulo de sua história. Por isso as páginas em branco, pois é você quem dá o rumo da sua vida, dos seus passos. Você e só você é capaz de escrever cada capítulo de sua história de vida. Escreva meu filho, faça de sua vida aquilo que você deseja. Sonhe, mas não deixe seus sonhos dormindo no seu travesseiro, acorde-os e realize cada um deles... Tenho que ir... – me disse o velho com seu ar cansado e triste - Estou morrendo... Quero que você, depois de minha morte, comemore a chegada do novo ano. Com ele novas esperanças de muita paz, alegria, amor, felicidade, fé e prosperidade também chegarão... 
O mundo está muito embrutecido, meu filho... As pessoas se matam por nada, é bala perdida achando inocentes, é bandido solto e políticos corruptos zombando indiferente, é tanta intolerância, tanto desamor, vocês não procuram um tempo para serem solidários, para conversar com Deus. Vocês precisam entender o que é amor pelo próximo e dar mais valor à vida. Tomara que o ano novo possa trazer isso para todos...
Enquanto o novo ano chegava e era comemorado por todos com festa, o velho morria, e muitos dele não se lembrariam, e outros o guardavam na lembrança com alegria.
Adeus ano velho... Feliz novo ano... E tenha pressa de viver um ano melhor, de reencontrar a si e ao outro, tenha pressa de se declarar, de se mostrar, de ser feliz. Tenha pressa, porque a gente não sabe quanto tempo o tempo nos dará e o tempo passa com muita pressa. Então, tenha pressa...
O ano acabou... Os sonhos e as esperanças se renovam... 
Seja bem-vindo meu novo ano!
Seja bem-vinda esperança!
Jorge Luiz Vargas
arte Camille Corot

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

ORAÇÃO DE NATAL



Acordo. Escuto o sino das igrejas. A do Rosário a da Boa Morte têm as portas abertas e os altares iluminados. O Rio Vermelho rola confuso suas águas engrossadas e crespas. Vai uma chuva mansa e leve pela cidade tranquila. Os morros escuros vestiram alvas de névoas. Passa gente na ponte conversando coisas simples e retas, demandando as igrejas para a missa da meia-noite.
A criança vai chegar. A esperança e a certeza de sua vinda, vinte séculos passados, ainda têm força de emocionar os corações. Mais ou menos mal, a humanidade ainda se prepara para o advento. Os que viajam, os que chegam, os que abraçam, os que presenteiam, os que surpreendem as crianças, os que se lembram dos pobres, o fazem em vosso nome.
Natal! Pequena pausa no ódio, no rancor, na indiferença, no desconhecimento do semelhante. Natal! Um minuto fulgurante para os corações que logo se fecham com a chave do egoísmo. Mas o milagre desse minuto é vosso, Menino Jesus.
Nascestes do desconforto de um abrigo de animais. A cidade rumorosa sem sequer percebeu vossa chegada. Mas vossa estrela foi vista e acompanhada pelos humildes. Nascia com a estranha criança um mundo novo e nova esperança para aqueles que nada esperavam.
Trinta anos mais tarde, aquele infante rasgaria um horizonte para os derradeiros escravos e humilhados: “os últimos serão os primeiros”. Sublevação da ordem natural demandando a cruz.
Sereis os primeiros, vós que nada tendes senão braços e músculos de trabalho para os poderosos de todos os tempos e nervos doloridos para a crueldade dos castigos. Dois mil anos decorridos vive ainda, nos corações, a promessa divina. Vinde a mim vós todos que estais em aflição e eu vos aliviarei.
Menino Jesus, o povo eleito esperou pela vossa presença quatro mil anos. Os profetas passavam e desapareciam afirmando a vossa vinda. As mulheres ansiavam pela maternidade na esperança de que seus ventres saísse o prometido. E o privilégio se realizou naquela noite remota que a igreja exalta e que a humanidade comemora de forma incompleta como tudo que é humano.
Venceram-se os quatro domingos do Advento, simbolizando os quatro mil anos da vossa espera pelos que esperavam. Chegastes pequena criança com o vosso destino traçado de pobreza, incompreensão e perseguição pelo mesmo povo que vos aguardou ansioso. Nem pudestes crescer os vossos e na sombra das figueiras de Nazaré, na casa tranquila do carpinteiro. Fostes levado em fuga dos poderosos, já receando a vossa pequenina sombra que mais tarde acolheria todos os desgraçados e oprimidos.
Menino Jesus, há tempos fizestes renascer os sonhadores da redenção social, todos os mártires da desigualdade humana, mas nem o menino de Belém alcançou a unanimidade no tema. Nem a pregação dos evangelistas, nem o verbo de João Batista, nem o sacrifício da cruz.
Senhor Menino, olhai bem vosso mundo e contemplai de perto os homens, feitos à imagem e semelhança de vosso Pai.
Menino Jesus, nesta noite de Natal, tão distante dos meus, abençoai o lar de meus filhos e sede guia e luz de meus netos. Acertai os passos de meus filhos e levantai o destino de meus netos e de todos os netos de todos os avós. Levai vossa presença aos desesperados, consolai os descrentes. Mostrai o vosso caminho aos marginais de todas as cidades e detei os criminosos com vossa mão de infante. Levai os homens do governo para o acerto e para a justiça. Afastai o perigos das guerras e fazei com que os chefes de Estado possam ser compreendidos uns dos outros. Desarmai os fortes em benefício dos fracos e consolai, Senhor, os que vivem na solidão.
Fazei, menino Jesus, com que as comemorações do vosso dia entre as criaturas não se façam apenas com estes pequenos símbolos de auxílio dos que podem para aqueles que nada têm.
Fazei, pequena e poderosa criança, com que os pobres, se lembrem sempre de que a parte deles será recebida na casa de vosso Pai. Fazei com que os poderosos da sua terra não se esqueçam de que já estão recebendo sua parte.

 
Cora Coralina
Do Livro Villa Boa de Goyaz
 

domingo, 16 de novembro de 2014

ORAÇÃO CELTA DO AMOR

 

Que jamais, em tempo algum,
o teu coração acalente ódio.
Que o canto da maturidade jamais asfixie a tua criança interior.
Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.
Que as perdas do teu caminho sejam sempre encaradas como lições de vida.
Que a musica seja tua companheira de momentos secretos contigo mesmo.
Que os teus momentos de amor contenham a magia de tua alma eterna em cada beijo.
Que os teus olhos sejam dois sóis olhando a luz da vida em cada amanhecer.
Que cada dia seja um novo recomeço, onde tua alma dance na luz.
Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas de tua passagem em cada coração.
Que em cada amigo o teu coração faça festa, que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins.
Que em teus momentos de solidão e cansaço, esteja sempre presente em teu coração a lembrança de que tudo passa e se transforma, quando a alma é grande e generosa.
Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente, para que tu percebas a ternura invisível, tocando o centro do teu ser eterno.
Que um suave acalanto te acompanhe, na terra ou no espaço, e por onde quer que o imanente invisível leve o teu viver.
Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável!
Que os teus pensamentos e os teus amores, o teu viver e a tua passagem pela vida, sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome. Aquele amor que não se explica, só se sente.
Que esse amor seja o teu acalento secreto, viajando eternamente no centro do teu ser.
Que a estrada se abra à sua frente.
Que o vento sopre levemente às suas costas.
Que o sol brilhe morno e suave em sua face.
Que respondas ao chamado do teu Dom e encontre a coragem para seguir-lhe o caminho.
Que a chama da raiva te liberte da falsidade.
Que o ardor do coração mantenha a tua presença flamejante e que a ansiedade jamais te ronde.
Que a tua dignidade exterior reflita uma dignidade interior da alma.
Que tenhas vagar para celebrar os milagres silenciosos que não buscam atenção.
Que sejas consolado na simetria secreta da tua alma.
Que sintas cada dia como uma dádiva sagrada tecida em torno do cerne do assombro.
Que a chuva caía de mansinho em seus campos...
E, até que nos encontremos de novo...
Que os Deuses lhe guardem na palma de Suas mãos.
Que despertes para o mistério de estar aqui e compreendas a silenciosa imensidão da tua presença.
Que tenhas alegria e paz no templo dos teus sentidos.
Que recebas grande encorajamento quando novas fronteiras acenam.
Que este amor transforme os teus dramas em luz, a tua tristeza em celebração, e os teus passos cansados em alegres passos de dança renovadora.
Que jamais, em tempo algum, tu esqueças da Presença que está em ti e em todos os seres.
Que o teu viver seja pleno de Paz e Luz!
 
arte Felix Mas

sábado, 8 de novembro de 2014

A VIDA ESCREVE


Sim, a vida escreve em toda parte aquilo que pensamos.
O caderno em branco chama-se Tempo.
E nós somos autores de todos os capítulos que se desenrolam
por fatos vivos, no livro da Eternidade.
Aqui a tragédia assombra.
Ali, o drama chora.
Além, a comédia ri.
Adiante, o poema enleva.
Anota, desse modo, aquilo que desejas, de vez que a
vida expressa tudo quanto queremos.
Contadora divina, soma os atos, subtrai influências, 
multiplica valores, divide compromissos e  dá-nos a equação
de tudo quanto é hoje, a fim de que saibamos o que seja Destino,
para nós, amanhã. 
 
In A Vida Escreve
Francisco C. Xavier e Waldo vieira
pelo espírito Hilário Silva
arte Jacob Von Hogflume
 

terça-feira, 29 de julho de 2014

LV


 

Ouve,  alma da Natureza, a minha canção.
Levanto a voz e os meus sentimentos louvam a magia da
 vida com musicalidade amena e doce. 
As notas melódicas da minha alma transformada em harpa
viva, compõem uma sinfonia que perpassa pelo ar, exaltando
 a poesia que estava adormecida no meu ser.
Durante o canto que se alteia e se modula, espalhando festa,
 meus ouvidos se deleitam com a alma da Natureza que agradece.
A brisa perpassa, ligeira, voluteando, e uma suave melodia
baila no leve ar; a música do córrego, em ritmado rumorejo,
enuncia uma agradável balada; a cachoeira despedaça cristais de
líquida espuma, no atrito das pedras lisas e é uma romanesca; a
terra se arrebenta em flores e estas desatam perfume em delicioso
cantochão...
Eu silencio o meu canto e ouço...
Oh! alma da Natureza!
Atrever-me a cantar para ti, quando, criatura de Deus colocada
no teu manancial de bênçãos, sou, também, parte da tua
harmonia!  
Ensina-me, então, a viver o amor, que é a canção mais
expressiva que de ti se exterioriza.   
Faço silêncio no coração para ouvir-te, alma da Natureza,
e, um mutismo de amor e veneração, descubro que também
 estou cantando. 
 
Divaldo Franco pelo espírito
de Rabindranath Tagore
In Estesia
arte Charles Daniel Ward (British,1872-1935), "The Progress of Spring", 1905

segunda-feira, 28 de julho de 2014

REALIDADE DISTANTE



 

Sonhei que sonhava...
Tudo era, então, risonho e doce encantamento, onde a dor e o sofrimento, a tristeza e a maldade se diluíam, quais bolas de sabão ao sabor do vento, em primavera cantarolante.
Os rios encachoeirados douravam-se sob os raios de permanente luz e os homens, em bandos gárrulos, exaltavam o amor.
Havia, em toda parte, a fraternidade sem suspeita e o serviço sem remuneração.
A poesia do bem recitava os versos de enternecimento com que as criaturas melhor se entendiam e completavam.
Recordei-me da guerra e do ódio, das pestes e dos suplícios, mas ninguém me pôde responder, quando interroguei os felizes habitantes desse paraíso.
Todos eram jovens e sábios com a idade dos tempos vencidos, além dos tempos a vencer...
Nem sombra ou mácula encontrei em parte alguma e dei-me conta de que as claridades que fulguravam em todo lugar nasciam em toda parte, sem extinguir-se em noite de triunfo mentiroso.
Sonhei que sonhava com o porvir, quando o Carro do Rei da Juventude e da Paz rasgará a estrada do infinito no rumo do sem-fim.
Amado Rei, por quem anelo, sempre sonhei contigo, porém hoje sonhei que sonhava.
... A Realidade chegou e despertou-me, dizendo-me, em canção de esperança: ama  e aguarda! Amanhã já não sonharás, porque o teu sonho já  não será.
 
Divaldo Franco pelo espírito
de Rabindranath Tagore
In Estesia

domingo, 27 de julho de 2014

XXVIII




O perfume de lírios e jasmins que corria nos braços do vento, não era somente a oferenda da primavera.
O cheiro da terra úmida esvoaçando do chão era mais do que a doação da madrugada.
O aroma delicado  do lótus, viajando nas mãos do ar que o recolheu, expressa o poema da natureza e mais do que isso.
Há um oceano de essências divinas perpassando por toda parte e inundando de alegria os animais e os homens , as plantas e a brisa que os absorvem em festa.
Todos experimentamos uma satisfação incomparável ao receber esse perfume, esse alento, hálito do teu amor que espalhas  no mundo para a vida que não perece.
 
Divaldo Franco pelo espírito
de Rabindranath Tagore
In Estesia