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sábado, 27 de dezembro de 2014

ADEUS MEU VELHO!



Boa noite meu velho! – Disse eu àquele senhor, sentado sozinho no banco da praça, olhando quem passa, com seu ar cansado, rosto marcado, barba branca e longa, olhar perdido ao longe, ombros caídos, mãos trêmulas segurando seu cajado, usado para ajudar suas pernas em seus últimos passos, sorriso escondido de quem está chegando ao fim.

- Boa noite meu filho – respondeu o velho com sua voz rouca, baixa e muito cansada...
O senhor não está bem? – perguntei...
- Estou cansado... Minha hora está chegando meu filho. Já cumpri minha missão. Todo mundo está esperando minha partida. Alguns com emoção. Outros com tristeza no coração... Estou contando as horas. Parece que foi ontem que fui recebido com festa. Até aqueles homens e mulheres que vivem ao relento me esperavam chegar. Quando cheguei o mundo todo já estava enfeitado de luzes, fogos coloridos e alegria... A esperança era a companhia de todos, com suas roupas novas e cada ser com sua cor predileta e suas simpatias acreditando que tudo seria diferente quando eu chegasse. E na contagem regressiva, muitos choravam, outros dançavam, alguns rezavam, outros buscavam dentro de si a esperança. Mas todos comemoravam a minha chegada. Eu representava, naquele momento, uma nova vida, novos amores, novos sonhos, retornos esperados, retomadas de paixões, e principalmente a prosperidade e a paz.
- É verdade – interrompi - Todos nós esperamos melhorar a vida, as relações, a sorte, as paixões, conquistar novos amores, manter o amor, cultivar pra não perder, se encontrar, nova vida viver. Eu também, meu velho. Eu também sonhei muito. Quis muitas coisas. Algumas consegui, outras não. Tanto ganhei. Tanto perdi, mesmo assim muitas coisas aprendi.
- Pois é meu filho – disse o velho me interrompendo também – Está quase na hora de ir. Em mim muitos sonhos foram realizados. Muitos amores, muitas pessoas, muitos sonhos, nasceram e morreram. Muitos foram felizes. Outros tantos sofreram. Alguns contaram o tempo para eu passar logo. Outros torceram para que eu parasse e deixasse que eles vivenciassem aquele momento de amor, felicidade, alegria sabendo que talvez jamais se repetiria.
- É verdade meu velho! – disse eu - Novamente eu sou testemunha disso. Também quis que o tempo parasse e que ele me deixasse ali, naquele exato momento, e nunca mais desse um passo à frente. Mas o tempo é implacável, Ele não para e nem tem sentimento. O tempo é frio e apressado!
- Meu filho, tenho que ir... – Me interrompeu o velho dizendo - Meu presente está chegando ao fim. Ontem fui futuro. Já serei passado. Página virada, talvez por alguns esquecida ou por outros lembrada, mas já vejo a contagem regressiva para a minha partida, o fim da minha jornada.
O velho, já muito cansado, me entregou um livro e disse: - É meu presente de despedida.
Peguei o livro e na capa estava escrito, em letras douradas, 2015 e dentro dele tinham trezentos e sessenta e cinco páginas numeradas e em branco. Então perguntei – Não tem nada escrito, meu velho? E então ele disse:
- Este livro é seu. Nele você escreverá mais um capítulo de sua história. Por isso as páginas em branco, pois é você quem dá o rumo da sua vida, dos seus passos. Você e só você é capaz de escrever cada capítulo de sua história de vida. Escreva meu filho, faça de sua vida aquilo que você deseja. Sonhe, mas não deixe seus sonhos dormindo no seu travesseiro, acorde-os e realize cada um deles... Tenho que ir... – me disse o velho com seu ar cansado e triste - Estou morrendo... Quero que você, depois de minha morte, comemore a chegada do novo ano. Com ele novas esperanças de muita paz, alegria, amor, felicidade, fé e prosperidade também chegarão...
O mundo está muito embrutecido, meu filho... As pessoas se matam por nada, é bala perdida achando inocentes, é bandido solto e políticos corruptos zombando indiferente, é tanta intolerância, tanto desamor, vocês não procuram um tempo para serem solidários, para conversar com Deus. Vocês precisam entender o que é amor pelo próximo e dar mais valor à vida. Tomara que o ano novo possa trazer isso para todos...
Enquanto o novo ano chegava e era comemorado por todos com festa, o velho morria, e muitos deles não se lembrariam, e outros o guardavam na lembrança com alegria.
Adeus ano velho... Feliz novo ano... E tenha pressa de viver um ano melhor, de reencontrar a si e ao outro, tenha pressa de se declarar, de se mostrar, de ser feliz. Tenha pressa, porque a gente não sabe quanto tempo o tempo nos dará e o tempo passa com muita pressa. Então, tenha pressa...
O ano acabou... Os sonhos e as esperanças se renovam...
Seja bem-vindo meu novo ano!
Seja bem-vinda esperança!


Jorge Luiz Vargas
Imagem João Cristofolini

segunda-feira, 23 de maio de 2011

AMIGOS DE ALMA - ANTÍDOTO PARA A SUPERFICIALIDADE





Hoje fui almoçar com um amigo querido, desses que se revelam joias raras e que guardamos com cuidado na nossa caixinha de tesouros. Lá pelo meio do almoço nos demos conta do quanto aquele momento era precioso e desatamos os dois a chorar, para espanto das pessoas que, no meio do dia, estavam lá somente para almoçar, sem lágrimas inclusas no cardápio.

O meu sentimento era uma mistura de alegria e gratidão. Alegria por estar na presença de uma pessoa que compreendia minha língua, alguém com quem eu podia ser simplesmente quem sou, sem edições ou explicações. Gratidão pela qualidade luminosa daquele encontro com um ser humano tão bonito, algo que não é tão comum quanto eu gostaria. Gratidão por, naquela presença tão inteira, ser capaz de me lembrar de minha própria inteireza.

Depois do almoço, dirigindo meu carro, vim pensando no quanto uma pessoa, um encontro real, pode tornar nossa vida melhor e mais significativa. Ah, como são preciosos os amigos de verdade, amigos de alma. Sabe, andam faltando modelos em nosso mundo. Pessoas a quem a gente possa admirar. Pessoas que consideremos especiais, sábias, belas.

Não falo da beleza externa, essa que se torna cada vez mais acessível com o incrível arsenal que a medicina e a estética oferecem hoje em dia. Falo da beleza real, dessa que vem de dentro… dessa beleza poderosa, que nos toca e faz nosso coração ficar maior dentro do peito.

É bom lembrar que nem tudo está perdido. Que aqui e ali existem pessoas extraordinárias, que não se perderam no alucinante ritmo de nosso mundo devorador de almas. Que andando por aí existem pessoas lindas, imersas em seus desafios diários, tentando fazer o seu melhor.

A chama de uma vela é, mais do que nunca, necessária. Nada é mais reconfortante do que aquela luz dourada nos momentos em que somos abraçados por uma súbita escuridão. Vivemos tempos sombrios, é verdade. Os valores mais belos andam se tornando mais e mais escassos ao nosso redor. Mas, se prestarmos atenção, veremos também milagres acontecendo. Veremos a improvável beleza resistindo e florescendo em meio à dor, ao medo, ao sofrimento. Veremos pessoas resistindo, lutando por suas almas, batendo suas asas e voando na direção daquilo que acreditam.

Eu me sinto profundamente tocada ao ver alguém assim corajoso. E de repente, como se uma nova vida fosse injetada em minhas veias, sinto-me novamente capaz de acreditar, de lutar e de prosseguir.

Nós precisamos uns dos outros, precisamos nos aproximar de pessoas que nos reconectem com a vida que pulsa em nossos corações. Nada é mais precioso do que uma pessoa que nos ajuda a voltar a acreditar em nós mesmos. Nada é mais gratificante do que ajudarmos alguém a manter sua chama acesa.

Pensar em tudo isso deixou tudo mais dourado ao meu redor.

Quem sabe o mesmo ocorra a você?

por Patricia Gebrim
In http://www.simplescoisasdavida.com/
foto http://www.institutodopotencial.com.br/2011/01/o

quinta-feira, 19 de maio de 2011

FELICIDADE REALISTA




A princípio bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.
Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis.Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor?
Ah, o amor… não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando.
Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo.
Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar a luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito.
É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista.
Ter um parceiro constante pode ou não, ser sinônimo de felicidade.
Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.
Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.
Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável.
Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno.
Olhe para o relógio: hora de acordar.
É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente.
A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio.
Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se.
Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.

Martha Medeiros

OLHE-SE NO ESPELHO



“No mês passado participei de um evento sobre o Dia da Mulher. Era um bate-papo com uma platéia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades. E por falar em idade, lá pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela, respondi.
Foi um momento inesquecível!!… A platéia inteira fez um ‘oooohh’ de descrédito.
Aí fiquei pensando: “pôxa, estou neste auditório há quase uma hora exibindo minha inteligência, e a única coisa que provocou uma reação calorosa da mulherada foi o fato de eu não aparentar a idade que tenho? Onde é que nós estamos?”
Onde não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado ‘juventude eterna’. Estão todos em busca da reversão do tempo. Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas.
Há um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada. A fonte da juventude chama-se “mudança”. De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora. A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas.
Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos.
“Mudança”, o que vem a ser tal coisa?
Minha mãe recentemente mudou do apartamento enorme em que morou a vida toda para um bem menorzinho. Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, ...Rejuvenesceu!.
Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos. Rejuvenesceu!.
Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um baita emprego por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela vai à praia sempre que tem sol. … Rejuvenesceu!!!
Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. Mas então chega o depois da coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face. Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna.
Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho. Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar.

Olhe-se no espelho…”

quarta-feira, 20 de abril de 2011

FAZER VERSOS




- Sim, custou muito.
Foi preciso, primeiro, que eu fosse bem criancinha
ainda e chorasse muito sem saber por quê...E mais
tarde...
...que eu descobrisse o arco-íris, achasse lindo,
mas lhe desse as costas para compreender o sol.
E depois...
...que eu aprendesse a ler e a escrever, achando
interessante o desenho das letras, suas curvas e suas
retas. E então...
...que eu começasse a dizer as palavras e a gostar
delas, independentemente do seu sentido, apenas pela
sua musicalidade. E por isso...
...que eu procurasse saber como foi e para o que
foi que elas nasceram, e por que, e onde, e quando.E,
pois...
...que eu percebesse serem elas multiformes,variando,
segundo o tempo e o espaço e a boca das
raças diferentes que as dizem.E no entanto...
...que eu entendesse ser a sua forma, na grafia e
no som, isto é, o seu espírito.E este era preciso...
...que eu achasse parecido com aquela,como a
alma se parece com o corpo.E, baseado nessa harmo-
nia...
...que eu elegesse a expressão exata, capaz de ex-
primir qualquer coisa...
...que eu criasse e guardasse em mim, fechada, 
secreta,proibida,porque me pareceu imortal.Mas,
para que não morresse ela comigo...
...que eu tivesse a coragem de tirá-la do meu mundo
e revelá-la e entregá-la ao mundo de todo o mundo.
E agora...
...que, retrocedendo, voltasse eu à criancinha que
fui, chorando muito,sem saber por quê.

***

Isso, aí em cima, para responder à pessoa amiga 
que me perguntou ,outro dia,se me custou muito
fazer o meu primeiro verso.

Guilherme de Almeida
09.09.1961

terça-feira, 19 de abril de 2011

CRENÇA




Crença e não-crença fazem parte do humano. Não são coisas estranhas. Podem, portanto, conviver perfeitamente.

Ou a pessoa é crente (a maioria dos brasileiros, segundo as pesquisas), ou não é. Dificilmente um crente convencerá um descrente a mudar suas convicções, e vice-versa. Os argumentos podem ser lógicos e/ou fervorosos, mas, independentemente de raciocínio, a decisão é tomada nos escaninhos mais profundos e misteriosos da mente, e de uma maneira que mal podemos compreender. No extremo, esta diferença pode levar a conflitos às vezes sangrentos. O "crê ou morre" não foi, e não é, raro na história da humanidade. No Iraque, barbeiros correm risco de vida. Por quê? Porque raspam ou aparam barbas, o que para os fundamentalistas é crime. De outro lado, as perseguições de regimes políticos contra religiões estabelecidas também podem ser ferozes.

As pessoas que não crêem tendem a amparar-se nas razões do intelecto ou da ciência. Sua atitude em relação aos crentes, não raro, é de condescendência, quando não de franco desprezo. Mas a crença religiosa representa um amparo impressionante; seu poder transparecia na fisionomia das pessoas durante a visita do Papa. Entrevistadas, falavam da intensa emoção que estavam vivendo e que certamente compensava muitas das frustrações do cotidiano. Mais que isto, o amparo que resulta da fé tem expressão até orgânica; trabalhos científicos mostram, de forma consistente, que crentes resistem melhor a doenças e que sua sobrevivência, em situações graves, é maior.

Diante disso, conclui-se que a palavra-chave, em matéria de crença (e em matéria de muitas outras coisas), é tolerância. Os não-crentes devem aceitar o fato de que muitas pessoas acreditarão em Deus, em milagres, na vida após a morte. E os crentes precisam aprender a respeitar a posição daqueles que não acreditam. Cada um tem o direito de agir conforme suas convicções; e a liberdade alheia deve ser respeitada. A viagem do Papa ressuscitou algumas antigas polêmicas neste país.

Polêmica, como demonstra o Lauro Quadros diariamente na Rádio Gaúcha, não prejudica ninguém. Violência prejudica. Bater boca? Ótimo. Bater nos outros, matar os outros, queimar os outros - negativo.

Sou humano e nada do que é humano me é estranho, disse o pensador latino Terêncio. Crença e não-crença fazem parte do humano. Não são coisas estranhas. Podem, portanto, conviver perfeitamente. Desde que as pessoas se aceitem mutuamente tais como são.
 
Moacyr Scliar

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

AULA DE POESIA

Não, antes de técnica, é necessário olhar. Antes de métrica, é necessário paciência. Para reduzir a poesia em argumentos do poeta, isso tudo é necessário para a estética das escolas literárias, mas a poesia é feita muito mais do que de letras, é feita de coisas primárias, basta você ascender a miragem para uma imagem, transformar a matéria engraçada em coisa séria, fazer com que a pedra vire flor, e não ao contrário, para que não se dê ao mundo outras possibilidades de arremesso.

Iniciemos com as cores vivas. E multipliquemos as luzes do dia em todos os cantos. Façamo-nos impressionistas, captando a mesma imagem com diferentes olhos. Devemos abdicar da vaidade para escrever o verso perfeito, pois este nunca sairá, ao menos a quem escreve. Porque depois de lapidado o verso, ele deixa de ser o que era, e passa ser não o que a imaginação queria, mas o que a convenção de cada época oprime: em décadas passadas a rima, na contemporaneidade, o espanto.

Que passamos a olhar o simples antes de escrever difícil; não transformar tanto o objetivo em subjetivo, senão a poesia torna-se só de um dentro do entendimento, e poesia de um não é poesia; se o que faz o poeta é compartilhar sensações então porque escrever para si mesmo?

Então escrevemos: amor de sexta-feira; saudade das amendoeiras do jardim de infância; voo de pandorga ou pipa e depois sair correndo antes da chuva; observação da lua em quatro fases distintas e se enganar sempre qual é a cheia e qual a nova; pele tostando ao sol com suor correndo em câmera lenta como nas propagandas de refrigerante; boca seca de nervosismo antes de apresentar nosso projeto, ou melhor ainda, antes de ler uma carta; pedido de perdão às 23 horas em dias 31 de dezembro; passeio pela mesma rua reparando coisas imperceptíveis; passeio por uma nova rua com olhos de última vez, nunca de primeira; atravessar correndo entre os carros para encontrar com alguém na outra avenida que de costas não lhe vê; cantarolar uma música que lhe permita permanecer em silêncio; dormir em dois numa cama estreita para sentir o necessário peso de cada braço; medir o abraço, se assim for possível, no momento depois da espera, aquele do primeiro encontro e ficar com essa imagem para sempre; separar os melhores temperos, em algumas vezes em detrimento dos seus preferidos, para fazer sua receita; não colocar pontos finais, mas preferir vírgulas...as vírgulas lhe dão outra possibilidade, além da respiração.

Nas minhas andanças a contar e ouvir histórias pelas escolas e lugares a que sou chamado, tenho recebido muitas aulas de poesia, e encontrado poetas bem melhores que eu. Poderia citar alguns, desconhecidos, mas tão necessários pro mundo, que é uma pena não serem globalizados. Seja na perseverança da dona Maria de Lurdes, com sua biblioteca comunitária; seja na luminosidade de meu amigo Osias e no que ele tem de crença no que há de bom no humano; seja na técnica ferrenha de Rubens da Cunha; seja na generosidade de Edson de Araújo; também nos ouvidos atentos do búlgaro Peter, do Ancionato Bethesda; além da amizade sincera de Rivelino Stuckel; da eternidade que Jurandir Albano me oferece; da dedicação que meu amigo Gilberto Ferreira me presenteia; e dos poemas, grandes de amor, de Patricia Hoffmann.

Recebo alguns e-mails de leitores me perguntando por que costumo citar tanta gente. Eu lhes respondo amigos leitores; é que, pra mim, a gratidão é a primeira matéria de minha aula de poesia.

M.de Silva e Silva
Crônica retirada do Jornal A Notícia de 22.10.2010

tela de Candido Portinari

domingo, 15 de agosto de 2010

PEQUENAS EPIFANIAS




Fragmentos disso que chamamos de "minha vida".

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor.

E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas. Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração.

Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia. Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania.

Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria. Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

Caio Fernando Abreu
(Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", 22/04/1986)
Imagem by Richard Osbourne

terça-feira, 27 de julho de 2010

A IDADE DA FELICIDADE



Um sábado de sol pleno, nenhum biombo entre a luz e a terra. Há quanto tempo o vivente não desfrutava de uma sequência assim iluminada, trégua para os dias de chuva e vento? (Desejo que manifesto ao escrever 24 horas antes, mesmo sabendo que a previsão insiste em anunciar mais chuva. E se já está chovendo, leitor, abra o seu próprio sol, como quem liga um interruptor na natureza).

O tempo influi decisivamente na psiquê das pessoas, um sábado de sol costuma ter o efeito de uma alucinação coletiva, arrebatamento que leva o homem a pensar que a felicidade até existe.

Felicidade. O que será? Júbilo, prazer, bem-estar, satisfação, qualquer que seja o seu nome, a felicidade é um pequeno frasco, administrável a conta-gotas — e facilmente quebrável. Na minha infância, simplesmente atendia pelo nome de sábado. Dia de festa, ar livre, euforia ao sol — especialmente este soleil puro e descoberto, como o do pré-outono.

Às vezes, era convocado por minha avó para acompanhá-la à missa do sábado. Bem na hora do Angelus, a Ave Maria, de Charles Gounod, inundava o espaço etéreo no Momento da Prece. A missa de véspera, às 18h, “valia” pela missa de domingo. Com a vantagem de liberar a manhã do dia santo só para a matinada do Cine São José.

Uma vez na capela do Menino Deus, o garoto ficava indócil. Passava o tempo olhando os fiéis em volta, compenetrados em acertar o “dó de peito” na hora em que o padre convidava:

— Caríssimos irmãos, página 17, vamos cantar o Queremos Deus…

“Homens ingratos”, reclamava o refrão. Mas quem poderia culpar a inquietude das crianças na missa, roídas pelo tédio e pelo tempo que custava a passar?

Sábado era, também, a tarde dos seriados no Cine Roxy. Os Perigos de Nyoka, Capitão América, O Vencedor, O Cavaleiro Negro, Diana e o Fantasma Voador, Hopalong Cassidy, A Volta de Jesse James, Tarzan, O Destemido, Dick Tracy, o Detetive — e outros hits do celuloide cor de sépia.

Se houvesse circo na cidade, o dia, mesmo num sábado, não poderia ter sido de sol. Era tempestade na certa. Aliás, furar a entrada do circo era, na chamada segunda infância, o supremo orgasmo da felicidade. Venturosa sensação, a de ter enganado o porteiro e assistir, ainda que do pior poleiro, todo o espetáculo de graça. Como herança da proeza, vistoso buraco nos fundilhos — obra e graça do arame farpado. Cerzir a calça ia custar mais caro do que o ingresso, mas “furar” o circo era um rasgo de pura felicidade — e a calça rasgada, apenas uma bronca materna, aliviada pela avó.

Sábado de manhã havia aula. No Catarinense e no Coração de Jesus. Era um pouco mais sério o calendário, mais completas as horas-aulas e a própria qualidade do ensino. As manhãs de sábado ficavam mais coloridas, com o esvoaçar dos uniformes plissados das meninas do “Coração”.

Essa outra felicidade já pertencia à adolescência: “dar plantão” ao meio-dia, na saída do Coração de Jesus. Era tocar o sino e — por encanto! — produziam-se centenas de meninas em flor, butterflies em animado alarido. Hora de puxar o Hollywood com filtro do bolso e engrossar a voz hesitante. E, diante das moças, acender o cigarro com a experiência de um Mr. Bogart, Humphrey Bogart — cada menina no papel de uma infantil Ingrid Bergman. Era preciso “investigar” aqueles seres belos e delicados, estranhos, muitas vezes, adoráveis, quase sempre.

Fugaz felicidade. A princesa de ontem — que remetera promessas no olhar — no dia seguinte dedicaria sua atenção a outros súditos, garotos mais encorpados, cujo “gogó” — o tal pomo-de-adão — subia e descia no meio do pescoço. O meu era “embutido” — prova, talvez, de minha precoce presença naquela revoada galante, à saída do colégio das freiras

Digo tudo isto apenas para concluir: a felicidade na idade madura é um pássaro esquivo e platônico. “Ninguém é mais feliz depois dos 30″ — advertira Baudelaire, o poeta maldito.

Um radical, certamente. Em homenagem ao sábado, amenizo as azias do poeta e digo que, depois dos 30, a única felicidade consiste em perseguir a felicidade…


Sérgio da Costa Ramos
Tela La Tarantella, 1879 by Leon Jean Perrault


domingo, 25 de julho de 2010

CONVERSANDO COM JOVENS por Affonso Romano


Que conselhos dar aos jovens? Ou melhor, se lhe convidassem para fazer uma palestra para a meninada entre 12 e17 anos a respeito da vida e do nosso tempo, o que você diria? Nelson Rodrigues, que gostava de fazer frases de efeito, dizia que devemos aconselhar ao jovem: "envelheça!"- como se isso fosse uma fórmula salvadora. Não é verdade. Muita gente envelhece e não cresce, cria casca e não amadurece.

Digo isto porque nesses dias fui falar para jovens em São Paulo e Minas. Primeiro, lembrei-me da célebre "Oração aos moços" proferida por Ruy Barbosa em 1920 aos formandos de direito. Fui ler o texto do "Águia de Haia". Quase ilegível hoje. Se espremer sai pouca coisa, além da velha retórica. Lembrei-me também de peças de teatro e romances onde um velho dá conselhos a um jovem que parte para a guerra ou para a vida.

Esses textos não me socorrem. O mundo é outro. Venho do paleolítico, ou seja, do século XX, um período assás estranho tanto na história do homo sapiens quanto na do homem ignorante. E constato que o século XXI, onde essas moças e moços estão, é bem diferente. No meu tempo os jovens eram predominantemente virgens. Achava-se que o mundo era dividido entre esquerda e direita. E pensava-se que a história seguia um rumo determinado. Havia a "guerra fria", não havia internet nem celular.Como dizia Rubem Braga, sou do tempo em que telefone era preto e geladeira era branca.

Olho o mundo dos jovens, essa sociedade a que chamam de pós-moderna, sociedade pós-industrial, aldeia global. O que fazer diante do apocalipse desencadeado não pelas armas atômicas, mas pelo derretimento da calota polar, a erupção de vulcões e tsunamis,? O que fazer diante das cidades entulhadas de carros, da poluição que sufoca nossos pulmões urbanos? Que fazer da eroticidade perversa e desgovernada despejada em catadupas sobre todos?

Se pudesse fazer alguns alertas ou deixar algumas sinalizações na estrada, eu diria aos jovens,cuidado com algumas palavras como interatividade, transgressão, relativismo ,anti-arte, etc.

Por exemplo:
1. a interatividade é formidável, possibilita intercâmbios, mas há o risco do discurso vazio, troca apenas de ruídos, um blá-blá-blá que bloqueia os fones da consciência;

2. a ideologia dominante abomina hierarquias. Mas hierarquias podem ser perversas ou construtivas. Não existe sistema sem leis, normais, regras. A pregação da quebra de normas, é simplesmente outra norma;

3.cuidado com o pensamento relativista. As coisas não se equivalem.O carbono tem certas propriedades que não são a do fósforo, todo ser humano tem algo pessoal . A voracidade metonímica tenta nos convencer que os sujeitos são objetos que podem ser trocados uns pelos outros;
4. alimentada pelas vanguardas há cem anos, nossa cultura apaixonou-se pela transgressão. Já não se trata de transgredir algo, mas de transgredir a transgressão. Isto é um paradoxo. Já se transgrediu tanto, que se poderia fazer um "museu da transgressão"- a transgressão já foi codificada. Antes, erroneamente se dizia: "não transgrida", hoje perversamente se diz- "transgrida"; desde modo quem obedece a ordem de transgredir não está transgredindo, mas obedecendo ordens;

5.nos globalizaram. Foi ótimo por um lado. Por outro lado, desnorteador. Ganhamos em aproximação com o "outro", o longínquo ficou próximo. Mas o "outro" virou um invasor de nosso espaço econômico, social e subjetivo. Indivíduos e culturas estão se sentindo, de certo modo, desenraizados, uma universalidade aérea, vazia;

6.a natureza está cobrando dívidas. Gerações anteriores assinaram cheques em branco sobre o futuro, as riquezas pareciam inesgotáveis. A "mãe natureza" não cobrava nada. Não era verdade: vulcões, tsunamis, secas, degelos e fome nos espreitam. Pela primeira vez todas as populações da terra são responsáveis por tudo. Confirmou-se o principio zenbudista de que o ruflar de asas de uma borboleta no oriente ocasiona um turbulência no ocidente.

7. A sociedade atual é uma sociedade "matrix". Exuberante. Mistura o falso e o verdadeiro, o real e o virtual. Cultiva o "fake" e o "cover". Pior: toma o lixo por luxo, centraliza contraditoriamente a periferia. Com isto, narciso vive num jogo confuso diante do próprio espelho.

8.Retrato mais sintomático dos nossos paradoxos é a arte de nosso tempo: a produção de enigmas vazios, produtos que se gabam de não significarem nada, como se o faminto imaginário humano pudesse se alimentar do vazio e se contentasse com a esterilidade criativa.

Ser jovem nunca foi fácil. E desde que nos anos 60 instituiu--se o "poder jovem" a coisa tornou-se mais complexa. Estar no poder é coisa de muita responsabilidade. Rimbaud dizia: "não se é sério aos dezessete anos". Será?

Cabe a vocês demonstrar se ele tinha ou não razão.

(*) ESTADO DE MINAS, 23.05.2010
http://www.affonsoromano.com.br/blog/index.php?atual=60&min=20&max=24

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A SOLIDÃO AMIGA


A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa... Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis“. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?“ Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.“ Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!“

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que “o inferno é o outro.“ Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia... Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:

“Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz – ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.

Ali as palavras e os tempos
poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.“

E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa – garrafa, prato, facão – era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (...) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (...) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia.“

Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita.“ É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

“...Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília...“

Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.
O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão...

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.
Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.

Rubem Alves
Correio Popular, 30/06/2002
Foto da Galeria de ichiro kishimi

terça-feira, 15 de junho de 2010

A MÚSICA

Angel Musician by Melozzo da Forli

Ângelus Silésius, místico só escrevia poesia, disse o seguinte: “Temos dois olhos. Com um contemplamos as coisas do tempo, efêmeras, que desaparecem. Com o outro contemplamos as coisas da alma, eternas, que permanecem.” Eis aí um bom início para se compreender os mistérios do olhar! Para se entender os mistérios do ouvir eu escrevo uma variação: “Temos dois ouvidos. Com um escutamos os ruídos do tempo, passageiros, que desaparecem. Com o outro ouvimos a música da alma, eterna, que permanece.”

A alma nada sabe sobre a história, o encadeamento dos eventos no tempo que acontecem uma vez e nunca mais se repetem. Na história a vida está enterrada no “nunca mais”. A alma, ao contrário, é o lugar onde o que estava morto volta a viver. Os poemas não são seres da história. Se eles pertencessem à história, uma vez lidos nunca mais seriam lidos: ficariam guardados no limbo do “nunca mais”. Mas a alma não conhece o “nunca mais”. Ela toma o poema, escrito há muito tempo, no tempo da história... (escrito no tempo da história, sim, mas sem pertencer à história...), ela o lê e ele fica vivo de novo: apossa-se do seu corpo, faz amor com ele, provoca riso, choro, alegria... A gente quer que os poemas sejam lidos de novo, ainda que os saibamos de cor, tantas foram as vezes que os lemos! Como a estórias infantis, irmãs dos poemas! As crianças querem ouvi-las de novo, do mesmo jeito. Se o leitor tenta introduzir variações a criança logo protesta: “ Não é assim...” Nisso se encontra minha briga com os gramáticos que fazem os dicionários: eles mataram a palavra “estória”. Agora só existe a palavra “história”. Freqüentemente os sabedores da anatomia das palavras ignoram a alma das palavras. Guimarães Rosa inicia o Tutameia com essa afirmação: “A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História.” Um revisor responsável ao se defrontar com esse texto, tendo nas mãos a autoridade do dicionário, se apressaria a corrigir: “A história não quer ser história. A história, em rigor, dever ser contra a História”. Puro “non-sense”... Mas aconteceu com um texto meu que, pela combinação da diligência do revisor com a minha preguiça ( não reli suas correções), ficou arruinado...

Escrevi essas palavras à guisa de uma explicação a posteriori para uma cena da minha vida acontecida há muitos anos que vi de novo com meu segundo olho há poucos minutos. Também a ouvi com meu segundo ouvido porque nela havia música. Veio-me no seu frescor original. Não havia tempo algum entre o seu acontecer no passado e o seu acontecimento, há pouco. As mesmas emoções. Não. Corrijo-me. A sua beleza estava mais bela ainda, perfumada pela saudade. Entendo melhor o que escreveu Octávio Paz: “Parece que nos recordamos e quereríamos voltar para lá, para esse lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiqüíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Um sopro nos golpeia a fronte. Estamos encantados. Adivinhamos que somos de outro mundo. É a ‘vida anterior’que retorna...” Sim, algo da minha vida anterior retornou como um sopro a me golpear a fronte...

A cena é assim ( quase escrevi “foi assim”. Corrigi-me a tempo. As cenas da alma não têm passado. Elas acontecem sempre no presente ). Eu e o meu filho de três anos estamos na sala de estar da nossa casa. Só nós dois. Havíamos terminado de jantar. No sofá, sua cabeça está deitada no meu colo. É a hora de contar estórias, antes de dormir. Aí ele me diz: “Papai, põe o disco do violão...” Levanto-me e pego o disco. Tomando toda a capa, a figura de um violino. Mozart. Ponho a peça que ele mais ama: “Uma pequena serenata”. É impossível não amar a pequena serenata... Quem poderia resistir à tentação de voar que ela produz? Pode ser que o corpo não voe. Mas a alma voa. Ouvir a “Pequena Serenata” é uma felicidade... ( Note que a “Pequena Serenata” é inútil. Não serve para nada. Ela é uma criatura da “caixa dos brinquedos”, lugar da alegria...)

Quando eu me esforçava por exercer a arte da psicanálise ouvi de uma paciente: “Estou angustiada. Não tenho tempo para educar minha filha.” Psicanalista heterodoxo que eu era, não fiz o que meu ofício dizia que eu deveria fazer. Não me meti a analisar seus sentimentos de culpa. Apenas disse: “Eu nunca eduquei meus filhos...” Ela ficou perplexa. Desentendeu. Expliquei então: “Eu nunca eduquei meus filhos. Só vivi com eles...” Ali, naquela noite, não me passava pela cabeça que estivesse educando meu filho. Eu só estava partilhando com ele um momento de beleza e felicidade. E se a Adélia Prado está certa, se “aquilo que a memória amou fica eterno”, sei que aquela cena está eternamente na alma do meu filho, muito embora ele tenha crescido e já esteja com cabelos brancos. Parte da alma dele é a “Pequena Serenata”, o disco do violão... E por isso, por causa da “Pequena Serenata”, ele ficou mais bonito...

Rubem Alves
Encontrado em http://www.rubemalves.com.br/amusica.htm



segunda-feira, 14 de junho de 2010

REFORMA ORTOGRÁFICA

Sei que já tem muita coisa parecida na net, mas como estou sem idéias novas e a-do-rei essa bobagem aqui, que curte ao mesmo tempo com o inglês e o pendor autoritário do Governador Californiano Arnold Scwarzenegger, resolvi fazer uma versão livre (libérrima, praticamente libertina, uma vagabunda devassa, na verdade) só para a minha diversão, e, espero, a de vocês também. Lá vai :

Eis aqui um programa de cinco anos para resolver o problema da falta de autoconfiança do brasileiro na sua capacidade gramatical e ortográfica. Em vez de melhorar o ensino, vamos facilitar as coisas, afinal, o português é difícil demais mesmo. Para não assustar os poucos que sabem escrever, nem deixar mais confusos os que ainda tentam acertar, faremos tudo de forma gradual.

No primeiro ano, o “Ç” vai substituir o “S” e o “C” sibilantes, e o “Z” o “S” suave. Peçoas que açeçam a internet com freqüênçia vão adorar, prinçipalmente os adoleçentes. O “C” duro e o “QU” em que o “U” não é pronunçiado çerão trokados pelo “K”, já ke o çom é ekivalente. Iço deve akabar kom a konfuzão, e os teklados de komputador terão uma tekla a menos, olha çó ke koiza prátika e ekonômika.

Haverá um aumento do entuziasmo por parte do públiko no çegundo ano, kuando o problemátiko “H” mudo e todos os acentos, inkluzive o til, seraum eliminados. O “CH” çera çimplifikado para “X” e o “LH” pra “LI” ke da no mesmo e e mais façil. Iço fara kom ke palavras como “onra” fikem 20% mais kurtas e akabara kom o problema de çaber komo çe eskreve xuxu, xa e xatiçe. Da mesma forma, o “G” ço çera uzado kuando o çom for komo em “gordo”, e çem o “U” porke naum çera preçizo, ja ke kuando o çom for igual ao de "G" em “tigela”, uza-çe o “J” pra façilitar ainda mais a vida da jente.

No terçeiro ano, a açeitaçaum publika da nova ortografia devera atinjir o estajio em ke mudanças mais komplikadas serão poçiveis. O governo vai enkorajar a remoçaum de letras dobradas que alem de desneçeçarias çempre foraum um problema terivel para as peçoas, que akabam fikando kom teror de soletrar. Alem diço, todos konkordaum ke os çinais de pontuaçaum komo virgulas dois pontos aspas e traveçaum tambem çaum difíçeis de uzar e preçizam kair e olia falando çerio já vaum tarde.

No kuarto ano todas as peçoas já çeraum reçeptivas a koizas komo a eliminaçaum do plural nos adjetivo e nos substantivo e a unificaçaum do U nas palavra toda ke termina kom L como fuziu xakau ou kriminau ja ke afinau a jente fala tudo iguau e açim fika mais faciu. Os karioka talvez naum gostem de akabar com os plurau porke eles gosta de eskrever xxx nos finau das palavra mas vaum akabar entendendo. Os paulista vaum adorar. Os goiano vaum kerer aproveitar pra akabar com o D nos jerundio mas ai tambem ja e eskuliambaçaum.

No kinto ano akaba a ipokrizia de çe kolokar R no finau dakelas palavra no infinitivo ja ke ningem fala mesmo e tambem U ou I no meio das palavra ke ningem pronunçia komo por exemplo roba toca e enjenhero e de uzar O ou E em palavra ke todo mundo pronunçia como U ou I, i ai im vez di çi iskreve pur ezemplu kem ker falar kom ele vamu iskreve kem ke fala kum eli ki e muito milio çertu ? os çinau di interogaçaum i di isklamaçaum kontinuam pra jente çabe kuandu algem ta fazendu uma pergunta ou ta isclamandu ou gritandu kom a jenti e o pontu pra jenti sabe kuandu a fraze akabo.

Naum vai te mais problema ningem vai te mais eça barera pra çua açençaum çoçiau e çegurança pçikolojika todu mundu vai iskreve sempri çertu i çi intende muitu melio i di forma mais façiu e finaumenti todu mundu no Braziu vai çabe iskreve direitu ate us jornalista us publiçitario us blogeru us adivogado us iskrito i ate us pulitiko i u prezidenti olia ço ki maravilia.

Crônica retirada do blogger
http://cyncity.zip.net/listArchive.html 
Teaching from 'Les Georgics' by Virgil 1469 by French School

quinta-feira, 3 de junho de 2010

PEDIDO DOS ANIMAIS

Kimberlin - Chocolate dog by Maxi Posters
Por Luiz Carlos Amorim – Escritor
– Http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br

Recebi, hoje, uma apresentação intitulada “Pedido dos Animais”, que não posso deixar de passar adiante. Numa época em que cada vez mais animais domésticos, como cães, são abandonados porque cresceram, porque ficaram doentes, porque os donos viajaram ou se mudaram, precisamos questionar a na nossa humanidade, nos perguntar porque não somos capazes de retribuir toda a lealdade e carinho que eles nos oferecem.
A apresentação, sem menção do autor, dizia assim:

“Se servimos para aplacar a tua solidão
Se servimos para que te sintas importante quando volta para casa
Se servimos para lamber tuas lágrimas quando estás triste
Se servimos para que não passeies sozinho ao final da tarde
Se servimos para te proteger da violência do teu semelhante
Se servimos para proteger teus filhos quando não estás por perto
Se servimos para que o seu coração não seja o único a bater em sua casa
Se servimos para que te divirtas brincando
Se servimos para alegrar o teu silêncio com nossas vozes
Se servimos para que a tua mão afague um pelo macio
Se servimos para que carregue alimento e trabalho em nossas costas
Se servimos para que seus olhos se encham com a beleza de nossas plumas
Se servimos para chorar a tua morte, quando não tens mais ninguém para chorar por ti

Então... não nos maltrate! Não nos abandone!
Não descontes tua tristeza em nós.
Não te afastes tanto, de forma que não consigamos mais te encontrar!
Respeite nossos sentimentos... Pois todos nós, considerados irracionais, temos sentimento...
Basta olhar bem dentro dos nossos olhos e verás que lá está escrito tudo que aqui foi dito!
Cuide de mim e dos meus filhos, como cuida dos teus. Pois cuido de ti e dos teus filhos como cuido dos meus...
Sejas amigo e te serei eternamente fiel e grato.
E o dia que eu partir...
Chores de saudade e não de arrependimento por ter me maltratado.
Respeite. Conscientize. Cuide.
Quando o homem aprender a respeitar todos os seres da criação, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante.”

Que tal? Se eles, os animais, falassem, não diriam isso mesmo? Precisamos atentar para o fato de que os animais são seres vivos, são filhos da natureza como nós, chamados “seres humanos”, “animais racionais”. Se não aprendermos a conviver com eles, como aprenderemos a viver com nossos semelhantes?


Luiz Carlos Amorim