quinta-feira, 14 de outubro de 2021

PENSAMENTOS QUE ME VISITAM NAS RUAS MOVIMENTADAS

 

Rostos.
Bilhões de rostos na face da Terra.
Dizem que cada um diferente 
dos que existiram ou existirão. 
Mas a natureza - quem lá entende -
talvez cansada do trabalho incessante, 
repete suas antigas ideias
e nos coloca rostos 
já usados um dia.

Talvez você cruze com Arquimedes de jeans,
a tsarina Catarina com roupas de liquidação,
algum faraó de pasta e óculos.

A viúva de um sapateiro  descalço
de uma Varsóvia ainda pequenina,
um mestre da gruta de Altamira
indo com  os netos ao zoológico,
um vândalo cabeludo, ao museu,
deslumbra-se um pouco.

Uns que tombaram duzentos séculos atrás,
cinco séculos atrás
e meio século atrás.

Alguém transportado aqui numa carruagem dourada,
alguém num vagão de extermínio,
Montezuma, Confúcio, Nabucodonosor,
suas babás, lavandeiras, e Semíramis,
que fala somente inglês.

Bilhões de rostos na face da Terra.
O teu, o meu, o rosto de quem -
você nunca vai saber.
Talvez a Natureza precise enganar,
e para dar conta de prazos e demandas,
comece a pescar aquilo que está submerso
no espelho da desmemória.

Wislawa Szymborska
de De Aqui  (Tutaj,  2009)
arte Dorina Costras

AS AQUARELAS



Não penso azul, nem verde, nem vermelho,
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.

A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.

Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas

tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...

Odylo Costa Filho
de Boca da Noite (1979)
arte Catherine Alex

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

O BOM LIVRO



O livro edificante é sementeira da Luz Divina,
aclarando o passado,
orientando o presente
e preparando o futuro...

Instrutor do espírito - esclarece sem exigências,
Médico da alma - cura sem ruído,
Sacerdote do coração - consola sem ritos exteriores.

Amigo vigilante - ampara em silêncio,
Companheiro devotado -jamais abandona,
Cooperador eficiente - não pede compensações.

Semeador do infinito - fecunda os sentimentos,
Benfeitor infatigável - jorra bênçãos de paz,
Campo benfazejo - prepara a vida eterna.

Lâmpada fulgurante - brilha sem ofuscar,
Árvore compassiva - frutifica sem condições,
Celeiro farto - supre sem perder


André Luiz
In Relicário de Luz
Psicografado por Francisco Cândido Xavier
arte Anne Bascove


DA AMIZADE




[...] Contudo, Simão Pedro, manifestando a estranheza que aquelas advertências lhe causaram,
interpelou ainda o Mestre, com certa timidez:
_ E como deveremos proceder quando os amigos não nos entendam, ou quando nos retribuam com ingratidão?


Jesus pôs nele o olhar lúcido e respondeu:

- Pedro, o amor verdadeiro e sincero nunca espera recompensas. A renúncia é o seu ponto de apoio, como o ato de dar é a essência de sua vida. A capacidade de sentir grandes afeições já é em si mesma um tesouro. A compreensão de um amigo dever ser para nós a maior recompensa. Todavia, quando a luz do entendimento tardar no espírito daqueles a quem amamos, deveremos lembrar-nos de que temos a sagrada compreensão de Deus, que nos conhece os propósitos mais puros. Ainda que todos os nossos amigos do mundo se convertessem, um dia, em nossos adversários, ou mesmo em nossos algozes, jamais nos poderiam privar da alegria infinita de lhes haver dado alguma coisa!... [...]

Fragmento do Livro Boa Nova
Pelo espírito Humberto de Campos
Psicografado por Francisco Cândido Xavier
arte Michael Malm

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

SER CRIANÇA





“Ser criança é dureza-
Todo mundo manda em mim-
Se pergunto o motivo,
Me respondem “porque sim”.

Isso é falta de respeito,
“Porque sim” não é resposta,
Atitude autoritária
Coisa que ninguém gosta!

Adulto deve explicar
Pra criança compreender
Esses “podes” e “não podes”,
Pra aceitar sem se ofender!

Criança exige carinho,
E sim! Consideração!
Criança é gente, é pessoa,
Não bicho de estimação!”

Tatiane Belinki
arte Emile Munier

domingo, 10 de outubro de 2021

POEMA DE NATAL,QUASE DE AMOR


 
Cristo nasceu. Nascido permanece.
Contudo não lhe fui à manjedoura:
à medida que morro desaprendo
o caminho sonhado por meus pés.
Ervas encobrem sendas de Judá
que outrora palmilharam magos, bois.
(Já à beira do Sinai, nascem fragores,
não das sarças ardendo, mas dos ódios.)

Aos olhos de quem soube do menino
e se aventura a achá-lo, entre destroços
de uma Jerusalém abandonada,
não brilha mais a estrela solitária.
Hoje são muitas, todos nos confundem
e indicam mil caminhos: nenhum leva
ao Cristo adormecido entre capim.

O cristal do seu pranto está perfeito.
Os mugidos perduram, sempre humildes.
A mensagem de amor, o incenso, a mirra.
A palavra dos anjos ainda soa,
mas já não racha o muro dos ouvidos
que, por nada escutar, ficaram moucos.

Por isso nosso amor é diferente:
imperfeito e aleijado – um fogo surdo
que apenas arde, queima, e não aclara
o nosso obscuro e inútil coração.

No pecado, que é nosso abismo e amparo,
está no entanto a chave, humana e esquiva,
do mundo que nos coube e o seu mistério,
– se aprendermos a amar. Aquém de amar
o pássaro no azul, importa amar
tão simplesmente o pássaro, sem céu.

Amar (sem recompensa), por exemplo,
a carne repelida porque enorme
e inerme, e azeda, e amarga, após o abraço.
E amar, sem tornar vil, nossa alma de homem
– aí, frágil, desvairada alma, tão grande
para abrigar tão mínima aventura,
com sua podridão angustiada
que nos consome porque não sabemos
o caminho que leva à manjedoura.

Thiago de Mello
Em: “O Andarilho da Manhã: 1953-1955”
arte desconheço

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

POEMA DA GRATIDÃO

 

Senhor, muito obrigado, pelo que me deste, pelo que me dás!
pelo ar, pelo pão, pela paz!
Muito obrigado, pela beleza que meus olhos veem no altar da natureza.
Olhos que contemplam o céu cor de anil, e se detém na terra verde, salpicada de flores em tonalidades mil!
Pela minha faculdade de ver, pelos cegos eu quero interceder, por aqueles que vivem na escuridão e tropeçam na multidão, por eles eu oro e a Ti imploro comiseração, pois eu sei que depois dessa lida, numa outra vida, eles enxergarão!

Senhor, muito obrigado pelos ouvidos meus.
Ouvidos que ouvem o tamborilar da chuva no telheiro, a melodia do vento nos ramos do salgueiro, a dor e as lágrimas que escorrem no rosto do mundo inteiro.
Ouvidos que ouvem a música do povo, que desce do morro na praça a cantar.
A melodia dos imortais que a gente ouve uma vez e não se esquece nunca mais.
Diante de minha capacidade de ouvir,
pelos surdos eu te quero pedir, pois eu sei, que depois desta dor, no teu reino de amor, eles voltarão a ouvir!
Muito obrigado Senhor, pela minha voz!

Mas também pela voz que canta, que ensina, que consola.
Pela voz que com emoção, profere uma sentida oração!
Pela minha capacidade de falar, pelos mudos eu Te quero rogar, pois eu sei que depois desta dor, no teu reino de amor, eles também cantarão!
Muito obrigado Senhor, pelas minhas mãos, mas também pelas mãos que aram, que semeiam, que agasalham.
Mãos de caridade, de solidariedade. Mãos que apertam mãos.
Mãos de poesias, de cirurgias, de sinfonias, de psicografias, mãos que numa noite fria, cuida ou lava louça numa pia.
Mãos que a beira de uma sepultura, abraça alguém com ternura, num momento de amargura.
Mãos que no seio, agasalham o filho de um corpo alheio, sem receio.
E meus pés que me levam a caminhar, sem reclamar.

Porque eu vejo na Terra amputados, deformados, aleijados…e eu posso bailar!!…
Por eles eu oro, e a ti imploro, porque eu sei que depois dessa expiação, numa outra situação,
eles também bailarão.

Por fim Senhor, muito obrigado pelo meu lar!
Pois é tão maravilhoso ter um lar…
Não importa se este lar é uma mansão, um ninho, uma casa no caminho, um bangalô, seja lá o que for!
O importante é que dentro dele exista a presença da harmonia e do amor!
O amor de mãe, de pai, de irmão, de uma companheira…

De alguém que nos dê a mão, nem que seja a presença de um cão, porque é tão doloroso viver na solidão!
Mas se eu ninguém tiver, nem um teto para me agasalhar, uma cama para eu deitar, um ombro para eu chorar, ou alguém para desabafar…, não reclamarei, não lastimarei, nem blasfemarei.

Porque eu tenho a Ti!
Então muito obrigado porque eu nasci!
E pelo teu amor, teu sacrifício, tua paixão por nós,
Muito obrigado Senhor!

Divaldo Franco
arte Michael Malm


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

1ª CARTA DE PAULO AOS CORÍNTIOS

 




"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria. (...) O Amor é paciente, é benigno; o Amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O Amor nunca falha. (...) Restam, pois, a Fé, a Esperança e o Amor; mas o maior destes é o Amor".  

    1ª CARTA DE PAULO AOS CORÍNTIOS - CAP.13 - VERS. 1-13
                                    Arte Shirley Reade


O QUE É VERDADE ?

 


O Que É Verdade?


O que é verdade afinal? Trata-se de uma pergunta difícil, mas acho que consegui respondê-la ao concluir que a verdade é aquilo que sua voz interior diz a você. Então você poderia perguntar: Por que pessoas diferentes abrigam verdades distintas e até mesmo contraditórias?

É porque, no momento em que vivemos, cada pessoa afirma possuir o direito à consciência individual, sem, entretanto, obedecer a qualquer tipo de disciplina. O fato é que há muitas inverdades sendo proferidas e proliferadas neste mundo completamente estupefato e desnorteado. Assim, tudo o que posso lhes dizer, e com a mais profunda humildade, é que a verdade não será encontrada por ninguém que não possua um abundante senso de reverência e auto entrega. Se pretendemos navegar pelo oceano da verdade, precisamos reduzir a nós mesmos ao completo nada.

A verdade está dentro de nós mesmos. Em cada ser humano existe um núcleo central em que a verdade plena habita. Cada indivíduo que atua de maneira incorreta sabe perfeitamente que suas ações são erradas; a inverdade jamais pode ser confundida com a verdade. Justiça e verdade devem permanecer para sempre como leis supremas no mundo de Deus.

A lei da verdade é compreendida meramente como o nosso dever de dizer a verdade. Todavia, compreendemos que essa palavra tem um sentido muito mais amplo. A verdade deve prevalecer no que pensamos, no que dizemos e em todas as nossas ações.


GANDHI, Mahatma. O que é verdade?.
 de O caminho da paz:
Arte Dorina Costra
Créditos Blog do Castorp

sexta-feira, 20 de março de 2020


Há dias em que a imensidão se apresenta tão branca,
que até o colibri fica inexpressivo.
Outras vezes, ela reverbera em sol tão absoluto,
que chego a temer sua real intenção.

Flora Figueiredo
de Páginas viradas de um abril qualquer

sábado, 7 de março de 2020

O AMOR, MEU AMOR

                                                     

                                                                (Para a Patrícia)

Nosso amor é impuro 
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo. 

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer. 

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu. 

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida. 

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida. 

Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera. 

Mas eu deito-me em teu leito
quando apenas queria dormir em ti. 

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu. 

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar. 


Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar. 

Mia Couto 
de Poemas Escolhidos 
arte Van Gogh

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

AMENIDADES


O vento de hoje chegou macio.
Não trouxe o abano,
o assobio
os versos tremulantes de pano.
Ao contrário dos ventos uivantes,
quando ele passar,
tudo ficará como antes.
Ventos amenos
não batem portas,
não viram mesas.
Se ao menos varressem do chão as folhas mortas...

Flora Figueiredo
de Páginas viradas de um abril qualquer
arte Olha Darchuk